um trecho

“Nesse momento começa a tocar uma música forte, ritmada, como se uma frente de um exército tentasse entrar em um castelo, como se milhões de peixes resolvessem pular em um pequeno barco. Uma imensa desproporção aparece em cena e Antenor, numa explosão de felicidade discursa sobre as maravilhas que descobriu sobre sua cabeça.”

Antenor

 

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citação

“Professora, me dê 10!”

Leandro Romano

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Antenor e o exagero

“O exagero é a personalidade do observador”
João do Rio

“A Bela Madame Vargas”, obra teatral de João do Rio é a mãe dessa frase. No caso se falava da sociedade em geral, de algumas sutilezas e de alguns exageros na maneira de se perceber o outro comum para quem era por demais atento. Não era uma crítica nem um elogio, era uma constatação da personagem Belfort, espécie de “Reasoner” (se é assim que se escreve), figura que explica, comenta, apresenta a trama e ajuda a resolve-la em muitos casos.
A obra dramatúrgica é interessante, mas foi essa frase que me ficou na cabeça. Vaguei por ela por muito tempo como um problema que aos poucos foi se clareando. Há hoje em dia, e disso muito se diz, uma espécie de tédio coletivo, de pasmaceira geral, de gelatina cerebral irreversível causada por muitos fatores, entre eles: a classificação, normatização do cotidiano aliado às explicações metafísicas cada vez mais fabulares e opressoras, acabando com a possibilidade de surpresas, acasos e fatos sem explicação; a forma da mídia de tanto repetir histórias diferentes tornando semelhante o que é diverso e diverso o que é curioso; o excesso de controle e auto-controle das pessoas, de uma pseudo consciência que permite que elas achem que sabem muito e estão no controle quando na verdade estão se subjugando e se limitando nas infinitas possibilidades que a vida apresenta; a forma de tornar tudo estatístico, tornando em número o que é orgânico.
E por que essa frase tão simples trouxe tudo isso à tona?! Porque hoje não há mais exageros. O exagerado é um ser fora da ordem, um ser em estado de exceção, que lá está até apanhar e entrar no barco, ou até alienar-se de si perdendo a consciência, ou mais tragicamente, até que sua fala perca o caráter de verdade para os outros. O exagero é uma forma de observar o mundo, de saber tirar dele esse olhar pasmado, esse olhar seco, bruto, católico, sociológico e psicológico. O exagero é olhar o mundo com uma baita surpresa, como se tudo pudesse mudar a qualquer segundo e se revelar justamente nas sutilezas que só a observação permite. O exagero é, enfim, a personalidade do observador, porque só quem sair dessa “vista neutra” poderá dissolver tudo que dissemos acima: a classificação, as histórias repetidas, o auto-controle, a pseudo consciência, as estatísticas. Ele sabe que nada disso é real, é apenas uma forma regrada de tentar dizer o que tudo deveria ser, enquanto que o exagero vê além, ultrapassa a barreira dos fatos e vê o que foi mesmo que não tenha sido, percebe o crime que se comete mesmo que não se cometa. É um indignado por natureza e por isso, mais justo.
Como exagerar então? Observando, passando cada vez mais tempo olhando as coisas, esmiuçando detalhe por detalhe, folha por folha, veia por veia, gota por gota de sangue à mostra. Com isso o exagero é latente, estará lá, amigo, e assim uma nova forma de se entender o mundo.
Pensando bem, Antenor é um pouco assim.

A Bela Madame Vargas – João do Rio

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Antenor em um minuto

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O fim de Arsênio Godard

Há um preso político por traíção. Ele é bem tratado: ganha alimentos e roupas, tem onde dormir e é livre para andar por ali. Tem apenas uma restrição: ninguém pode falar com ele. É a ausência de voz onde a palavra é totalmente negada que movimenta esse conto:

“E foi então que a luta mais curiosa e mais atroz o sport mais doloroso e mais inquietante que jamais viramos, entre a palavra e o silêncio. Cada um de nós, com o instinto animal de vencer, não respondia só para obedecer ao comandante, não respondia porque responder seria vitória do pobre diabo. Cada figura de bordo era um componente daquela máquina de separação, daquela máquina que o tenente João chamava “o pneumático da vontade”, a rarefação do homem, porque a palavra é a vida, e falar, trocar palavras é sentir viver. Godard sentia bem que nós o murávamos no silêncio, que nós cada dia erguíamos mais alto aquele muro de mudez que as suas palavras não podiam, não conseguiam quebrar.”

do livro “Dentro da noite” de João do Rio
Dentro da noite – João do Rio

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Cinque minuti, por Francisco Ferraz

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